Queda acumulada de 2,5% no faturamento da indústria de materiais de construçãoaté setembro leva associação a rever projeção para o ano, diante dos juros elevados e do endividamento das famílias
A recuperação do varejo de materiais de construção abaixo do esperado levou a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (ABRAMAT) a rever suas perspectivas para 2026. A entidade, que projetava crescimento de 0,5% no faturamento anual, agora estima retração de 0,8%. A mudança ocorre após o setor acumular queda de 2,5% entre janeiro e setembro, período em que o faturamento deflacionado recuou 1,1% em relação aos mesmos meses de 2025.
Os dados integram a edição de outubro do Pulso ABRAMAT, relatório mensal que reúne indicadores de desempenho da indústria, expectativas empresariais e informações econômicas relacionadas à construção. Na comparação com agosto, o faturamento cresceu 3,8%, considerando o ajuste sazonal. A alta mensal, porém, não foi suficiente para reverter o resultado negativo acumulado no ano. Entre janeiro e setembro, os materiais básicos registraram queda de 2,2%, enquanto os materiais de acabamento recuaram 2,8%.
A revisão das projeções reflete, principalmente, a recuperação mais lenta do comércio varejista. Embora as obras de infraestrutura e os empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida (MCMV) sustentem parte da atividade, os juros elevados e o endividamento das famílias restringem os gastos com construção e reformas. O Programa Reforma Casa Brasil também não impulsionou as vendas de materiais na intensidade esperada pela indústria. “Seguimos com performance positiva das obras de infraestrutura e do MCMV, mas nossas projeções consideravam como premissa adicional uma resposta mais forte do varejo e do consumo das famílias no segundo semestre, o que ainda não aconteceu”, afirma Mauro Franco, presidente executivo da ABRAMAT.
Diante desse cenário, ele aponta que a recuperação ficou mais distante, levando à revisão da projeção para o faturamento da indústria de materiais, que passou a indicar queda de 0,8% em relação ao ano anterior.
Empresas esperam reação das vendas em outubro
O Termômetro ABRAMAT confirma que o desempenho do mercado ficou abaixo das expectativas em setembro. Na pesquisa anterior, 90% das empresas projetavam vendas regulares, boas ou muito boas no mercado interno. Na avaliação efetiva do mês, esse percentual caiu para 72%. Entre as empresas consultadas, 29% classificaram as vendas como boas ou muito boas, 43% avaliaram o resultado como regular e 29% consideraram o desempenho ruim ou muito ruim.
Para outubro, as perspectivas são mais favoráveis: 38% esperam vendas boas ou muito boas, 52% projetam resultado regular e 10% preveem desempenho ruim ou muito ruim.
O Termômetro ABRAMAT vem sinalizando uma expectativa de reação do mercado um pouco acima do que vem sendo efetivado a cada mês. A aposta de uma recuperação mais forte do varejo de materiais de construção tem explicado esse efeito e sustentado um cenário ainda de otimismo para os próximos meses. “Nosso olhar neste momento está mais forte no acompanhamento da performance do varejo e torcendo por uma maior reação ainda dentro deste ano”, afirma Mauro Franco.
Enquanto as obras de infraestrutura e os empreendimentos habitacionais contribuem para sustentar a atividade, o mercado de reformas continua pressionado pelas restrições ao consumo, uma vez que o crédito caro e o endividamento das famílias limitam a demanda. O varejo de materiais também permanece em terreno negativo. Entre janeiro e julho, as vendas acumularam queda de 1,0% na comparação com o mesmo período de 2025.
Cenário econômico mantém pressão sobre o setor
Os indicadores macroeconômicos mostram comportamentos distintos entre os segmentos da economia. Em julho, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) cresceu 1,1% em relação ao mesmo mês de 2025, enquanto a produção física da indústria de transformação recuou 1,1%. No mesmo período, o varejo ampliado avançou 1,8% na comparação anual.
Embora alguns indicadores apontem crescimento, o custo do crédito continua sendo um fator de pressão sobre o consumo e os investimentos. Em setembro, o Banco Central reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano, patamar que ainda mantém o financiamento oneroso para empresas e famílias.
Nesse contexto, a evolução do varejo nos próximos meses será determinante para avaliar a possibilidade de uma recuperação do faturamento industrial. Por enquanto, infraestrutura e habitação sustentam parte da atividade, mas a demanda das famílias segue limitando o desempenho do setor.
Fonte: Cimento Itambé
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