Os impactos da eventual redução da escala de trabalho para cinco dias de trabalho e dois de descanso (5×2), assim como os efeitos da reforma tributária sobre os custos da construção, vêm sendo acompanhados pelo setor como fatores relevantes para o planejamento das empresas e para a dinâmica da atividade. Os temas foram discutidos na reunião de Conjuntura Econômica do SindusCon-SP de junho, conduzida pelo presidente Yorki Estefan e o vice-presidente de economia Eduardo Zaidan.
Entre os dados mais recentes, o PIB da construção no primeiro trimestre, com crescimento de 1,3%, apresentou resultado acima das expectativas, impulsionado, em grande parte, pelas reformas realizadas pelas famílias. No mesmo período, o saldo líquido do emprego foi superior ao registrado no primeiro trimestre do ano passado, com destaque para o segmento de infraestrutura.
Segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), o desempenho do setor refletiu uma combinação de fatores. “O PIB da Construção do primeiro trimestre, com incremento de 1,3%, surpreendeu positivamente, devido em grande parte às reformas das famílias”, afirmou. De acordo com ela, o segmento empresarial também vem puxando o aumento do PIB da construção, ainda que em ritmo menos acelerado do que em anos anteriores.
Na cidade de São Paulo, o principal movimento observado foi o avanço das vendas, com predominância de unidades vinculadas ao programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Ana Castelo também destacou que o emprego na construção vem crescendo na margem desde janeiro, em comparação com o mês anterior, puxado pelo segmento de infraestrutura e com maior força no Nordeste. “A Sondagem da Construção do FGV/Ibre mostra que a tendência de aumento do emprego deve se manter”, observou.
No financiamento, os recursos da poupança destinados à construção cresceram no primeiro quadrimestre frente ao mesmo período do ano passado. Ainda assim, permanece a incerteza em relação à disponibilidade futura desses recursos para financiar a aquisição das unidades. Ao mesmo tempo, os custos com materiais e mão de obra seguem elevados, enquanto a escassez de trabalhadores qualificados continua sendo um desafio para a atividade.
Reforma tributária
A adaptação das empresas à reforma tributária ainda ocorre de forma gradual. Dados da Sondagem da Construção apontam que 18,6% das construtoras realizaram adaptações relevantes até o momento, enquanto 45% fizeram ajustes pontuais.
Entre as principais dificuldades identificadas, 51% das empresas apontam a complexidade da nova legislação e de sua regulamentação. Além disso, 42,8% assinalam incertezas em relação às alíquotas finais e às regras específicas — em uma pergunta que permitia múltiplas respostas — e 47% afirmam perceber tendência de aumento de custos.
Cenário econômico
O ambiente externo também influencia a dinâmica do setor. Segundo Robson Gonçalves, professor da FGV, o aquecimento da economia dos Estados Unidos pode levar à elevação dos juros naquele país, reduzindo o diferencial em relação às taxas brasileiras e impactando o câmbio. “Isto pode pressionar os preços aqui e amplificar o impacto da alta do petróleo”, afirmou.
No Brasil, de acordo com Gonçalves, o PIB do primeiro trimestre também surpreendeu positivamente, com destaque para o consumo das famílias, o que pode sinalizar um último movimento de corte de juros neste ano. Ele também destacou que a taxa de investimento cresceu 3,5% no período, classificando o dado como positivo, embora a dívida pública siga em trajetória de alta.
Redução da jornada
Em estudo feito para a Abrainc (Associação Brasileira de Incorporação Imobiliária), Robson Gonçalves estimou que a eventual implementação da redução da jornada com manutenção dos salários pode elevar em 17% o custo da mão de obra e em 7% o custo total das obras. “Para contrabalançar, seria necessário um aumento de produtividade de 17%, o que demandaria um prazo mais dilatado para a adaptação do setor da construção”, explicou. Segundo ele, o impacto no preço dos imóveis seria de 3,9%.
Já a PEC 12/2026, que propõe a flexibilização da jornada com pagamento por hora e a possibilidade de negociação por meio de acordos coletivos ou individuais, apresenta potencial de redução de custos. No entanto, Gonçalves avalia que há indícios de inconstitucionalidade, especialmente pela prevalência do acordo individual sobre o coletivo. “Isso cria insegurança jurídica”, observou. Em sua análise, a chance de aprovação da proposta é pequena e, mesmo que avance, deverá enfrentar contestações judiciais.
Avaliação do setor
Na avaliação do SindusCon-SP, tanto a reforma tributária quanto eventuais mudanças na jornada de trabalho tendem a impactar os custos e a organização da produção na construção civil. O tema também mobiliza preocupações relacionadas à preparação das empresas, aos prazos de execução de obras e aos efeitos combinados de um cenário já pressionado por custos de insumos e mão de obra.
O presidente do SindusCon-SP, Yorki Estefan, ressaltou a percepção de que o setor ainda não está preparado para a reforma tributária e que seria necessário um adiamento do prazo de vigência. Ele também alertou para os impactos da redução da jornada sobre o prazo das obras, além da pressão adicional provocada pelos custos de materiais.
O vice-presidente de Economia do SindusCon-SP, Eduardo Zaidan, chamou a atenção para o efeito da reforma tributária sobre os custos da construção, reforçando a preocupação do setor com o aumento de despesas em um ambiente já desafiador.
Também são apontados impactos potenciais sobre cadeias produtivas específicas. Luis Bueno, membro do Comitê de Tecnologia e Qualidade (CTQ), observou que a reforma tributária também deverá afetar os empreiteiros e mencionou riscos trabalhistas que podem surgir a partir da redução da escala de trabalho, como no caso do fornecimento de concreto aos sábados. Já Rodrigo Von Uhlendorff, vice-presidente de Tecnologia e Qualidade, destacou que as contratações de obras da Faixa 1 do programa Minha Casa, Minha Vida são realizadas a preço fixo, o que amplia a dificuldade de orçamentação diante do atual contexto de custos e incertezas.
Fonte: Assessoria de Imprensa
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