Mesmo com a retração no início de novas obras no Brasil, os números operacionais das incorporadoras mostram fôlego no setor. Um levantamento com 15 companhias aponta crescimento de 49% nos lançamentos e de 13% nas vendas no primeiro semestre de 2025, na comparação com o mesmo período do ano passado.
Já os dados do Cadastro Nacional de Obras (CNO), do Ministério da Economia, indicam tendência oposta. As novas construções iniciadas recuaram 6,2% no semestre, totalizando 71,8 mil obras, e a queda chegou a 8,2% apenas em junho.
Segundo Fábio Moraes, economista e sócio da consultoria E2+, “a queda era esperada, mas talvez não nessa intensidade”. Ele lembra que a comparação se dá sobre uma base elevada, após crescimento de 19% de 2023 para 2024. Para ele, o cenário de juros altos — atualmente em 15% ao ano — ajuda a explicar o desaquecimento. “Estamos em patamar elevado de juros há bastante tempo. O patamar atual é restritivo”, afirma.
O efeito da taxa é duplo: encarece o crédito para o consumidor e também limita o acesso ao financiamento para construção. “Se não tiver solução para isso, pode impactar nos lançamentos, e aí quem tem [acesso ao] ‘funding’, empresas de balanço forte, ganha mais ‘market share’”, analisa Fanny Oreng, líder da equipe de analistas do setor imobiliário do Santander.
A retração é generalizada: o levantamento da E2+ mostra quedas em todas as regiões — com destaque para o Norte (-8%) e o Sul (-7,8%). As licenças para novos lançamentos também caíram.
A expectativa da consultoria é que o setor mantenha um ritmo mais moderado até meados de 2026, a depender da trajetória dos juros. “Esfriar crédito e demanda é o objetivo do Banco Central”, resume Moraes.
Por outro lado, programas como o Minha Casa, Minha Vida (MCMV) continuam sustentando o setor no curto prazo. O alto padrão também mantém tração.
No que se refere a custos, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) acumula alta de 7,19% em 12 meses até junho, bem abaixo dos picos da pandemia. No entanto, os preços dos materiais seguem pressionados. A venda de cimento (+3,5%) e o faturamento da indústria de materiais de construção (+2,2%) sinalizam algum vigor.
Questões externas, como a guerra tarifária iniciada pelos EUA, podem afetar o preço do cimento — 70% do combustível usado nos fornos é importado dos norte-americanos. Já o aço pode baratear, caso as siderúrgicas redirecionem exportações ao mercado interno.
Com os balanços do segundo trimestre chegando em agosto, Fanny Oreng antecipa: “Devemos ver números decentes. Há menos espaço para surpresa”.
Fonte: Papo Imobiliário
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